quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Sob vaias, Dilma pede parceria para crescimento

Brasília. Após ter sido vaiada algumas vezes durante a leitura da mensagem do Executivo no Congresso, a presidente Dilma Rousseff afirmou ontem que é preciso ter "esperança" e "determinação" diante das dificuldades e que era sua "absoluta obrigação estar aqui".
Dilma decidiu ir pessoalmente fazer a leitura da mensagem do Poder Executivo na reabertura dos trabalhos do Congresso -tarefa que, usualmente, era entregue ao ministro-chefe da Casa Civil. É a primeira vez que ela, no posto mais alto da República, desempenha a tarefa.
Diante da crise política e da retomada da discussão sobre o impeachment, Dilma decidiu interromper a tradição dos últimos anos e escrever um texto em primeira pessoa, em aceno à base aliada e também à oposição.
"É essa determinação e é essa esperança que acho que nós temos que ter diante das dificuldades", disse a presidente. "Achei ótima a receptividade. Tinha absoluta obrigação de estar aqui", completou.
A presidente foi vaiada principalmente no momento em que defendia a recriação da CPMF como uma das medidas para ajudar o país a sair da crise econômica. Enquanto dizia que o imposto seria "temporário" e "transitório", a presidente foi vaiada em três ocasiões e disse que essa seria uma medida tomada "em favor do Brasil".
Dilma aproveitou para ressaltar a necessidade de aprovar medidas que estão em tramitação no Parlamento como as que alteram a tributação de juros sobre capital próprio e a reforma do Supersimples.
Ela se mostrou favorável à propostas de tributação direta que incidem sobre renda e patrimônio, uma das sugestões que o PT deu ao governo para o aumento da arrecadação federal.
Reação
O ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, declarou que as vaias durante a fala de Dilma "são do dia a dia do Congresso" e que os protestos não mudam a dinâmica entre Executivo e Legislativo.
Questionado se o governo não viu as manifestações como um indício de que a aprovação da CPMF pode não ser possível, o ministro afirmou ter "confiança" de que o imposto será aprovado e que o Palácio do Planalto "sabe que há oposição". "Não muda nada", declarou.
"É mais fácil vaiar que bater palma, mas acho que ela tem maioria (no Congresso)", afirmou Wagner ao final do discurso de Dilma, enquanto falava o presidente da Câmara e desafeto do Planalto, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). "Em uma sessão solene, era melhor não ter (vaias). Mas quem sou eu para dizer o que é para ter ou não na Casa do povo?", comentou.
Dilma falou várias vezes em "parceria" com o Congresso para ajudar o país superar a crise e disse que era preciso "mirar no futuro" e "não no período do meu governo".
Ironia
Já o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB-AL), começou o discurso com um tom de ironia e impondo uma dose de constrangimento a Dilma, presente no plenário da Câmara dos Deputados.
Em referência às dificuldades do governo federal no Congresso, ele mais uma vez se referiu a 2015 como "o ano que não começou, nem terminou". "Conclamo o parlamento brasileiro a retomar seus esforços para que tenhamos em 2016 um ano que tenha início, meio e fim", disse.
O peemedebista se referiu ao quadro econômico como uma "crise sem precedentes" e que cabe ao Congresso "buscar uma conjunção de esforços" e minimizar o debate pelas "responsabilidades" do cenário nacional.
Segundo ele, a economia do país cobra por reformas estruturantes que coloque o país de volta na rota do crescimento.
Ele defendeu a austeridade e independência do Senado Federal e defendeu a votação de proposta de regulamentação do trabalho terceirizado, que já foi apreciada pela Câmara dos Deputados. "O parlamento brasileiro não pode fugir do debate de temas controversos", afirmou.
Oposição
Três deputados oposicionistas - dois do PSDB e um dissidente do PSD - ostentavam placas onde se lia "Xô, CPMF".
Responsável por ter admitido a abertura do processo de impeachment da presidente, Eduardo Cunha saiu ontem em defesa da petista, alvo de vaias.
O peemedebista disse que a presidente teve um "gesto correto" ao enfrentar protestos, afirmou que os parlamentares deveriam respeitá-la "institucionalmente" e destacou ser "muito difícil" a aprovação na Câmara da CPMF, uma das principais matérias que a presidente apelou por apoio no pronunciamento.
Ele foi ignorado por Dilma na chegada à solenidade e anteontem, em evento de abertura do ano do Judiciário, foi alvo de um protesto velado do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que pediu seu afastamento em razão das investigações da Operação Lava-Jato.
O presidente da Câmara disse que, por se tratar de uma visita institucional, os parlamentares deveriam ter paciência de ouvi-la, mesmo não concordando.
Questionado se o gesto de Dilma diminui a pressão pelo impeachment, o presidente da Câmara se esquivou. 'Não quero tecer comentário sobre isso, nem vou falar se isso arrefece ou aumenta o impeachment. Isso é outro problema", disse ele.
Para outros opositores, a petista fez uma fala "vazia" e "tecnocrata", sem apresentar propostas com possibilidade de serem aprovadas. "Nada mais vazio e tecnocrata. O discurso parecia um relatório", afirmou o líder do PPS na Casa, Rubens Bueno (PR). "Muito blá-blá-blá e pouca ação", avaliou o líder do DEM, Mendonça Filho (PE).

Nenhum comentário:

Postagem em destaque

Operação na cadeia Pública de CANINDÉ.

141 celulares  60 carregadores  47 chips 38 baterias extras 4 pendrive 2 cartões de memória  1 balança de precisão  44 papel...