quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Suspeito de matar PM fugiu oito vezes de Centros

O juiz Manuel Clístenes de Façanha e Gonçalves lamentou o fato de, mais uma vez, um foragido de Centro Socioeducativo envolver-se em crime que resulta na morte do policial militar. Testemunhas reconheceram o jovem ( FOTO: JL ROSA )
A fragilidade do Sistema Socioeducativo do Estado do Ceará pode ter facilitado as condições para que o soldado PM Samuel Davi Nogueira Moraes, 29, fosse assassinado, na tarde da última sexta-feira (12). Um adolescente de 16 anos, apontado como participante da ação de roubo que culminou na morte do policial, já escapou oito vezes do Sistema Socioeducativo. Em três das fugas, o jovem estava cumprindo medidas em semiliberdade. Nas demais ocasiões, escapou de quatro Centros Educacionais diferentes.
O adolescente foi ouvido por volta das 15h de ontem na 5ª Vara da Infância e Juventude. Na presença do magistrado, negou envolvimento no crime que resultou na morte do policial mas disse conhecer as outras pessoas apontadas como participantes. Por morar nas proximidades de onde o PM foi morto, o jovem acabou reconhecido por algumas pessoas. Temendo, inclusive, ser morto, o adolescente procurou a Polícia e se entregou, na Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA).
A reportagem apurou que o jovem já foi internado no Centro Educacional São Miguel, no Bairro Passaré; no Centro Socioeducativo Passaré; no Centro Socioeducativo do Canindezinho; e no Centro Educacional Patativa do Assaré, no bairro Ancuri. Fugiu de todos. Deste último, conseguiu escapar duas vezes.
Nas outras três ocasiões em que escapou, o adolescente cumpria as medidas socioeducativas em regime semiaberto.
Conforme o juiz da 5ª Vara da Infância e Juventude, Manuel Clístenes de Façanha e Gonçalves, o adolescente já é conhecido do Poder Judiciário desde que tinha apenas 12 anos. "Ele alega que já responde a 16 procedimentos. Cumpre medidas socioeducativas desde o ano de 2012. De lá para cá, vem sempre lamentavelmente evoluindo o grau de gravidade dos atos infracionais", relatou.
O magistrado lamentou o fato de, mais uma vez, um foragido de Centro Socioeducativo envolver-se em crime que resulta na morte da vítima. "O fato se repete. As fugas dos Centros Educacionais têm se tornado constantes. Você percebe claramente o prejuízo que a população tem com essas fugas. Esses adolescentes estão voltando e praticando novos atos infracionais graves ou gravíssimos. Recentemente tivemos casos de grande repercussão, como a morte do juiz no bairro Papico, em março, que foi praticada por um adolescente foragido", relembrou.
O adolescente foi reencaminhado para um Centro Socioeducativo para cumprir um período de internação de seis meses a três anos, medida máxima aplicada aos jovens que passam pela 5ª Vara da Infância. Isto, referente a apenas um dos 16 procedimentos em que o próprio adolescente admite ser citado.
"Acerca da morte do soldado, aguardamos a conclusão do Inquérito Policial. Somente as investigações vão comprovar a participação dele ou não no crime. Ele foi reconhecido por uma pessoa como participante ativo daquele evento", relatou o juiz.
Motins
No último fim de semana, 21 adolescentes conseguiram escapar do Centro Educacional Patativa do Assaré, em três momentos distintos. Destes, somente três foram recapturados, de acordo com o juiz da 5ª Vara da Infância e Juventude. No ano, já são 438 fugas registradas no Ceará.
Na sexta-feira (12), três jovens conseguiram escapar da unidade, em ação ainda inexplicada, conforme o magistrado. Já no domingo, os reeducandos protagonizaram um motim, com queima de colchões.
À tarde, 13 adolescentes escaparam, através de um buraco feito na muralha do Centro Socioeducativo. Foi necessária a intervenção da Polícia Militar para apaziguar os ânimos. Quando a situação parecia controlada, houve nova mobilização e mais cinco jovens fugiram.
"Não é tão rápido e fácil, com as ferramentas que eles têm, quebrar a muralha principal da unidade. Alguma coisa já vinha sendo preparada ao longo dos últimos dias", ponderou o juiz.
Manuel Clístenes de Façanha e Gonçalves ainda descreveu a situação do Centro Educacional Patativa do Assaré como "muito complicada", afirmando que visitou o local há pouco mais de uma semana. "A situação está muito complicada. Os adolescentes não estão mais permitindo que os socioeducadores fiquem muito próximos. Existe um clima de intimidação permanente. Os agentes estão com medo de ficar naquele contato com os adolescentes. A Polícia não pode ficar permanentemente dentro do Centro, que fica nesse clima, o que atrapalha ainda mais o andamento (da reeducação). Alguns orientadores que conseguiram bloquear determinadas ações dos adolescentes teriam sido agredidos e ameaçados, fato que fez com que eles ficassem ainda mais amedrontados. A unidade fica ainda mais vulnerável", destacou o magistrado.

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